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O convento de S. Domingos do Porto: para a memória de um lugar

Este blogue é um livro. Para melhor entendimento desta afirmação, convido todos os que aqui chegam pela primeira vez a ler a 'Nota Introdutiva', na primeira publicação.

Uma nova casa para Deus... mas emprestada!

por Nuno Cruz, em 14.09.17

Caro leitor, vamos agora dar um salto de algumas centenas de anos para a frente na história da casa dominicana portuense! Este salto tem dois objetivos: o primeiro, não enfastia-lo com latim... (acredite que ainda vêm aí mais documentos na língua mãe...); o segundo, dar a conhecer parte de um documento que creio inédito e que encontrei durante as minhas pesquisas.

 

Mas primeiro uma pequena introdução: O ano é o de 1778, o dia o de 24 de Abril, o acontecimento: um incêndio na igreja dominicana que destrói o seu telhado. E sinto-me compelido a fazer uma retificação: Todas ou quase todas as fontes escritas que a este incêndio se referem dão-no como acontecido em 1777. Não, não foi. Foi na data atrás referida. Pedro Vitorino é, segundo creio, a única voz que clama no deserto. Porque estou tão certo da data? Porque um indivíduo holandês morador na cidade à época a registou (bem como outras datas bastante interessantes para a história do Porto). Com certeza que com isto não é minha pretensão condenar todos os que deram como certo o ano de 1777, posto que se tratará de um erro inocente e o próprio autor dele - Agostinho Rebelo da Costa - não o terá feito com dolo. Ainda assim, ela repete-se e repete-se, correndo o risco de se tornar verdade... (1)

 

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O documento que refiro é um inventário de bens em sequestro exigido como condição pela rainha D. Maria I aquando da entrega da antiga igreja da Ordem Terceira de São Domingos aos frades Pregadores, onde constam os bens que ficavam ao cuidado destes. Desta forma ficou o templo sendo a igreja oficial do convento de S. Domingos (mais tarde a outra igreja seria reduzida a armazém). A Ordem Terceira, essa, fora já dada como extinta em 1755 como corolário de um processo que "cheirou mal" desde o início e que não se sabe muito bem quando começou embora tenha para mim que a coisa começou a azedar ainda no final do século anterior...

Bem, mas quem não gostou nada da entrega daquele templo aos frades foi a Ordem da Trindade, sucessora da terceira dominicana, que se achava dona de tudo aquilo e que reclamou para si durante mais de 50 anos a propriedade ainda que sem sucesso. Chegaram mesmo em 1835 a pedir como indemnização a igreja velha dos domínicos, mas isso são histórias para depois...

 

Vamos então ao documento e vejamos, abreviadamente, qual era o conteúdo daquele templo tão distintamente desenhado por Joaquim Cardoso Vitória Vilanova:

 

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Bens que estavam em sequestro em poder dos religiosos dominicanos na igreja nova

 

Capela-mor:

seis anjos estofados; uma imagem de Nossa Senhora por cima da banqueta; da parte do Evangelho a imagem de S. Francisco e da parte da Epístola a imagem de S. Domingos; duas credencias (sic) de talha douradas; cinco pedras d'ara dos altares; duas imagens de santos entre barandais; o altar da parte do Evangelho com sua pedra de ara e uma imagem de Santa Margarida e outro altar ao pé também com pedra de ara com a imagem de Santo António que nele se achava; o altar da parte da Epístola com as imagens de São José e Santa Ana e pedra de ara, no altar imediato as imagens de Nossa Senhora da Conceição, Beata Osana e Beata Colomba com pedra de ara, que são as mesmas cinco que acima se fez menção.

 

Corpo da igreja:

quatro quadros grandes com caixilhos dourados de talha, pregados dois de cada lado; em todo o corpo da igreja de nichos e em cada um deles sua imagem de diversos santos de 6 palmos de altura; um anteparo da porta principal; no coro um órgão desconcertado, e com falta de vários canudos [hoje na igreja matriz de Avintes]; seis barandas no corpo da igreja, de talha dourada, e quatro na capela-mor; o espaldar e grades onde se juntavam os irmãos da mesa, tudo arruinado; dois confessionários de pau; duas bacias somente em dois altares de lançar a água do lavatório [lavatório que está atualmente no jardim de S. Lázaro]; doze sacras dos altares; cinco estantes de pau dos mesmos; mais duas pedras de ara além das cinco já ditas.

 

Sacristia:

dois caixões com suas chaves de guardar os paramentos por cima dos quais dois espelhos grandes, cada um dividido em três; um retábulo ou oratório de talha dourada com seis nichos e em cada um sua reliqua[?], com seu frontal de talha dourada; quatro bandeirolas mais duas pequenas de talha dourada por cima das vidraças; uma mesa de mármore com pé do mesmo de se porem os cálix no meio da sacristia; uma guarda-roupa embutida na parede de guardar os ditos cálix; um espaldar de talha em feitio de resplendor [e] em ele uma cortina de seda muito velha; uma chave do sacrário pequena perfumada de prata com sua fita de peso muito usada; duas palas da porta do sacrário, uma de seda de ouro guarnecida de gabões do mesmo fio, e outra de damasco branco muito usada guarnecida de renda de ouro do mesmo uso; as chaves que dizem respeito à porta da igreja, sacristia e cemitério; a casa do cemitério com duas lojas a ela pertencentes; a casa do despacho que confronta com a sacristia e outra por baixo desta; altar principal do mesmo cemitério e nele as imagens seguintes - um santo do tamanho de 1 palmo e S. Domingos, um Senhor dos Passos com túnica roxa, cruz às costas e resplendor de folha dourada, de estatura de um homem; dentro do altar uma imagem do Santo Cristo morto, da mesma estatura, com dois véus, coberto de garça, colchão, e um lençol, e duas almofadinhas, e um véu de tafetá roxo de o cobrir; um frontal de tábua pintado e frisos dourados, dois castiçais de pau pequenos e velhos; seis jarras de pau e destas quatro douradas, e tem ramos(?) entre os quais dois são de papelão prateados; quatro alâmpadas de latão de dois palmos de alto; em um altar colateral da parte do Evangelho o Senhor amarrado à coluna, com uma toalha de linho, com renda e resplendor de folha dourada com frontal de tábua pintada e franja dourada; da parte da Epístola outro altar com a imagem de Ecce Homo com toalha de linho com renda e uma capa de damasco encarnada velha e frontal de tábua, e franja dourada, dois painéis de pano pintado; um de S. Domingos e outro de S. Caterina de 6 palmos de altura com caixilhos muito velhos de talha; oito cruzes com resplendor e pontas de talha dourada de 6 palmos de alto pregada nos varões dos arcos do corpo do cemitério, no fim do mesmo cemitério um altar com retábulo dourado, muito velho, e seis imagens; três escadas do serviço da igreja, e as grades das frestas, e altares com vinte e três varões de ferro delgados, sendo as grandes dezassete, mas algumas quebradas mais quatro varões de ferro das alcatifas da capela-mor; nove ferros de vidraças, porque sendo quatorze só se entregaram cinco; duas andarelas(?) de metal dos altares, e um jarro de estanho velho, e uma caldeira de água benta de estanho com seu exópo(?) do mesmo, com uma asa quebrada, e a outra dita de parede com seu exópo?; uma estante de pau piquena; duas cortinas de seda de ouro, de dentro da porta do sacrário, um corporal piqueno com sua renda; uma bandeirinha piquena de S. João bordada de seda; uma mesa de pau pintada de preto usada, que se acha na sacrestia e se não podia tirar, sem se quebrar; na mesma um armário pintado de azul de castanho com lotes para papeis, que pela mesma razão, se não tirou; uma alâmpada de latão piquena de palmo, e meio velha; um armário velho detrás da tribuna grande e de castanho...

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Com a certeza que a informação que consta deste inventário não interessará, na sua maioria, para o estudo da história. Contudo não deixa de apresentar o texto preciosas ainda que escassas descrições de como estava organizado o edificado que outrora pertencera à ordem terceira e que em 1778 passou para as mãos dos dominicanos, passando a ser partir dessa data a sua igreja conventual de facto.

 

Do edificado que tudo isto albergou resta o que se vê nas imagens abaixo, colhidas pelo autor destas linhas quando há poucos anos o local foi pesquisado arqueologicamente. Como vemos, apenas parte do antigo carneiro da igreja ainda lá se encontra e nela alguns dos seus "ocupantes"; aqueles que há centenas de anos escolheram o templo para sua última morada e que nem poderiam imaginar que no futuro estavam condenados a ser pisados por transeuntes, carros de bois, e toda a sorte de ululantes e poluentes veículos movidos por motor de combustão interna...

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1 - Mais recentemete, em outubro, consultando um livro do cartório franciscano depositado na Biblioteca Pública Municipal do Porto pude corroborar esta data, pois nele se encontram transcritos vários documentos referentes à extinção da Ordem Terceira de S. Domingos, onde ela é declarada.

 

Bibliografia: Petição da Celestial Ordem da Trindade (ADP)

Agradecimento: A Gabriel Silva pela informação sobre o orgão da igreja dos terceiros.

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