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O convento de S. Domingos do Porto: para a memória de um lugar

Este blogue é um livro. Para melhor entendimento desta afirmação, convido todos os que aqui chegam pela primeira vez a ler a 'Nota Introdutiva', na primeira publicação.

Uma memória (quase) perdida

por Nuno Cruz, em 21.12.17

Caro leitor, cá estou eu a pregar-lhe nova finta! Antes de entrarmos nas aquisições de terreno que os Pregadores fizeram, parcela a parcela, para constituírem uma boa horta para sua subsistência, vamos recordar um momento da vida do convento que teve lugar no século XVI. É a grande vantagem de ter um livro feito blogue... cada época fica sempre disponível à distância de um click.

 

No ano de 1576, aí por maio, realizou-se no convento de S. Domingos do Porto um acontecimento raro. Com efeito, este convento foi sempre de segunda importância, por assim dizer, dentro da província a que pertencia e nele não terão ocorrido factos de grande monta nem por ele passado personagens ou clérigos cobertos de glória. Foi vivendo as vicissitudes dos vários tempos que atravessou, foi evoluindo, modificando...

Ora, naquele ano quiseram os homens que ocorresse o capítulo provincial da Ordem dos Pregadores neste convento. Era provincial Fr. Estevão Leitão que em conjunto com os seus definidores achou por bem convidar o Arcebispo de Braga para o concílio. Este convite não era despropositado: quem ocupava aquele cargo era o famoso Fr. Bartolomeu dos Mártires, um dominicano.

 

Homem humilde e verdadeiro servo de Deus, Fr. Bartolomeu aceitou o convite e deslocou-se à nossa cidade para se unir em fraterna convivência com os seus irmãos. Quis entrar pela calada da noite para não lhe prepararem pomposas manifestações de alegria e regozijo por o receber dentro das suas portas... mas em vão! Todos o esperavam, todos o queriam ver! O bispo do Porto, D. Aires da Silva(1) convidou-o a pernoitar no seu Paço, mas o frade/arcebispo preferiu a companhia dos seus e foi no convento do Porto que repousou da sua caminhada.

 

Durante o capítulo foi-lhe requisitado que pregasse no púlpito, ao que astuciosamente se escusou, evocando falta de hábito em o fazer com a consequente perca de destreza no uso da palavra em tão importante função. Mas, no chamado capítulo de culpis, requisitado de novo para a pregação, não teve outra opção senão fazê-lo, em nome do voto de obediência que todo o dominicano professa.

Beato_Bartolomeo_Fernandes_dei_Martiri.jpg

Fr. Bartolomeu dos Mártires (ao lado esquerdo podemos ver as armas da Ordem dos Pregadores com o seu lema: Laudare, Benedicere, Praedicare).

 

E agora começa o episódio narrado por Fr. Luís de Sousa que aqui recupero: No dia seguinte, quando subiu ao púlpito, já a notícia se espalhara pela cidade e «foi cousa nunca vista o concurso de gente na igreja a vê-lo e ouvi-lo». Depois, conta ainda o cronista, um milagre terá ocorrido aquando do discursar do Arcebispo. Entre a verdade e a lenda, a verdade é que se trata de um dos poucos episódios passado dentro daquela igreja que o Porto esqueceu e por isso merece ser recordado aqui:

 

«Neste sermão se conta que lhe aconteceu aquele caso tão raro, que podendo ser o caso, tem muito de prodígio espantoso, quando não quisermos conceder que nele houvesse milagre, ou revelação, que é bem de crer que a houve. Veio a tratar de muitos males que causa em ũa alma o torpe vício da sensualidade. Discorrendo por eles encarou pera um lugar onde estava assentada ũa mulher que nas visitações do bispo trazia mau nome; e não tirou os olhos do lugar, nem dela por um espaço grande apertando a matéria com tanta energia que não faltava mais que nomeá-la por seu nome. Estava a mulher corrida (e não devia ser do mais vil do povo) parecendo-lhe que toda a igreja seguia o arcebispo em pregar os olhos nela: senão quando prosseguindo o arcebispo a matéria, e querendo fazer ũa figura de retórica com propor um exemplo vivo em pessoa e nome, acode com o nome da mesma mulher e começa a nomeá-la, e chamar por ela ũa e muitas vezes. Quando a pobre ouviu o seu nome, acabou de se persuadir que com ela o havia o arcebispo, e que não podia ser senão, que tinha novas de sua vida, e não sintindo que remédio tomasse em tamanha afronta como imaginava em meio de toda ũa cidade, que não era menos o auditório, deixou cair o manto sobre os peitos, e assi esteve até ao fim do sermão desfazendo-se em lágrimas. E não era bem acabado quando se levantou e saiu da igreja julgando e assentando consigo, que quantos nela ficavam, eram já testemunhas do que se passava em sua consciência.

O bispo ficou tão cheio de espanto do que ouviu, que quasi não dava crédito a suas mesmas orelhas. Chamou dispois o escrivão da visitação que também esteve presente, benzia-se o homem e fazia pasmos de como podia ser ter o arcebispo notícia do que se passava no segredo da visitação, e do seu escritório: e se a não tinha, como era possível falar tão determinadamente, e tanto ao certo».

 

É este sem dúvida um facto mais ou menos lendário ainda que de agradável leitura; o que não podia ser de outra forma dado ter saído da pena de um autor de prosa deliciosa, versando a vida de um homem superior. Um homem que, em Trento, teve a coragem de dizer que os ilustríssimos e reverendíssimos cardeais ali presentes, também haviam mister de uma ilustríssima e reverendíssima reformação! Assim, sem mais! Foi esse grande homem, um incansável calcorreador da sua arquidiocese para se inteirar continuamente de melhorar seu estado, que passou pelo Porto naquele longínquo maio de 1576 e pregou desde o fundo da sua alma, ali onde agora pernoitam e passeiam turistas.

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1- D. Aires da Silva foi um dos que tombou em Alcácer Quibir em 1578, junto de El-Rei D. Sebastião.

 

Bibliografia: Vida de Frei Bartolomeu dos Mártires por Fr. Luís de Sousa, editado primeiramente em 1619.

Imagem: Wikipedia