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O convento de S. Domingos do Porto: para a memória de um lugar

Este blogue é um livro. Para melhor entendimento desta afirmação, convido todos os que aqui chegam pela primeira vez a ler a 'Nota Introdutiva', na primeira publicação.

Padecimentos

por Nuno Cruz, em 28.11.17

Instalados que estavam os frades de S. Domingos junto do pequeno burgo do Porto e iniciadas as obras de construção/adaptação das casas e igreja cedidas pelo bispo, seria de esperar que esta nova casa florescesse no ministério para a qual se criara. Contudo cedo, muito cedo, ainda durante aquele ano, foram os frades envolvidos em querelas com o clero local tal como os franciscanos que já sofriam a ira daqueles prelados desde pelo menos o ano anterior (1). Quer para uma quer para a outra ordem mendicante serve bem as explicações que Fr. Manuel da Esperança e Fr. Luís de Sousa dão nas suas respetivas crónicas. No entanto opto aqui pelas palavras do dominicano do séc. XVIII que escreveu o Livro do Foral do seu convento:

 

« Pelos anos de 1238 pouco mais, ou menos vendo o Cabido desta cidade, a muita devoção, que os moradores dela, que naquele tempo eram todos fregueses da Sé, tinham aos religiosos deste convento, de sorte, que desamparando a sua Parrokial todos se queriam sepultar no nosso convento concorrendo a esta igreja com suas obradas e esmolas, e que estes interesses lhes faltavam lá na sua Catedral, começaram a inquietar os religiosos com tanta paixão, que fazendo grandes queixas ao bispo D. Pedro Salvador, este insuflado pello Calbido começou a proceder contra os religiosos com tanta tirania, que logo lhes proibiu o pregar, e confessar, e dizerem missa, embargando-lhes as obras da igreja, e convento, pondo excomunhão a todos os que trabalhassem nelas, revogando todas as doações feitas ao convento, anulando também todas as compras, que os religiosos tinham pago metendo-se de posse de algũas propriedades, que já possuía o convento, em fim buscando todos os meios com que mais molestasse aos religiosos até que desesperados deixassem esta cidade, e todo o seu bispado, querendo assim lançar fora de si, e seu bispado aos mesmos, que com tanto zelo, e instância tão honradamente chamou para a sua companhia... »

 

Ainda em 1238 os dominicanos remetem uma missiva para Roma, dando conhecimento da situação e pedindo expedita resolução. Gregório IX reagiu enviando um Breve ao Arcebispo, Deão e Chantre da arquidiocese de Braga para que, como mediador, colocasse um ponto final na situação. Apenas quando este fez ver a D. Pedro Salvadores que teria de fazer o que o Papa ordenava, é que foram enviados junto dele os seus representantes, alcançando-se finalmente um acordo. (2)

Igualmente o rei D. Sancho II quis ajudar os frades e em janeiro de 1239 passou um documento onde refere que mandava fazer o convento em prol da sua alma, recebendo-o por isso debaixo do seu amparo; estipulando as sanções a quem, de alguma forma, prejudicasse os frades e/ou os seus criados/operários. Este diploma, estou em crer, insere-se na intensa disputa existente entre a Mitra e a Coroa sobre qual era o verdadeiro término do couto que D. Teresa doara ao Bispo do Porto em 1120. Disputa essa que, se adormecida durante o reinado de D. Afonso II, não estava de todo extinta, pelo contrário, vai-se prolongar bem para além da época que aqui nos interessa! É que, quer o convento franciscano quer o dominicano se pretendiam instalar (como efetivamente aconteceu) em terrenos entre o rio da Vila e o rio Frio, numa área disputada por ambos os poderes. (3)

 

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A travessa da Bainharia é o único resquício que nos ficou da rua da ponte de S. Domingos, que remontava ao início do século XVI. Atravessando essa mesma ponte (sensivelmente onde na foto se vê o tuktuk), subia-se a ladeira chegando no seu topo ao convento dominicano. No século XIII, este caminho para Miragaia, ainda uma rural azinhaga, fez com toda a certeza parte do calvário dominicano de indas e vindas à Sé, na tentativa de solucionar os problemas que o seu suposto protetor lhes havia criado...

 

Mas foi a doação da rainha D. Mafalda (4) de uma importante igreja que lhe pertencia, que fez com que o senhor do Porto acalmasse os ânimos em relação aos dominicanos. Com a doação dessa igreja em junho de 1239 - que tinha à época o nome de Santa Cruz de Riba Leça, sendo hoje conhecida pelo de Santa Cruz do Bispo - vieram todas as suas posses e rendimentos. O motivo é precisamente  «in recompensationem graviminis, si in aliquo ex praedicatorum Fratrum commorantione Ecclesia Portugallensis fuerit aggravata»; ou seja, para que o sr. bispo e restantes cúria episcopal não ficassem sem os seus rendimentos garantidos(5).

 

Depois de sanadas as divergências, poderemos dizer que em 1241 se aquietaram finalmente os frades no sítio que o bispo lhes cedera. Quanto a D. Pedro Salvadores, ainda que tenha passado à história como perseguidor quer dos dominicanos quer sobretudo dos franciscanos; é notável que tivesse, em testamento, nomeado para executor das suas últimas vontades o prior dos Pregadores, bem como Fr. Gualter (franciscano?). Morreu em 1247, não sem dois anos antes ter feito doação de duas fontes ao convento: ambas nascendo nas hortas da Cividade onde mais tarde virá a existir o mosteiro de S. Bento das Freiras (agora a estação de S. Bento) conforme descreve o frade anónimo do Livro do Foral de 1728:

 

«... no ano de 1245 também nos deu duas fontes das quais ũa nasce nas hortas, que hoje são das freiras de S. Bento ... que chamam da Samaritana, e a outra nasce de baixo do coro das ditas religiosas, da qual temos a área entre o primeiro, e segundo botaréu, que está da sua portaria ate as escadas da entrada da igreja, cuja doação nos confirmou o Sr. Bispo D. Vicente seu sucessor, no ano de 1293...»

 

E agora sim, na próxima publicação vamos embrenhar-nos no latim medieval dos contratos notariais! Prometo que será apresentado em "doses suaves".

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1 - As primeiras bulas de censura enviadas pelo papa Gregório IX - uma ao Bispo a outra ao Cabido - datam de 25 de maio e 23 de junho de 1237 respetivamente. Embora a primeira carta que o mesmo papa enviara ao bispo do Porto D. Martinho Rodrigues(†1235) datasse de 20 de maio de 1233, não é certo que os franciscanos se tenham instalado logo nesse ano.

2-  Provavelmente estes desenvolvimentos deram-se já em 1239, não obstante o Breve papal datar de setembro de 1238.

3- Corresponde aproximadamente ao terreno compreendido entre a rua Mouzinho da Silveira e a igreja de S. Pedro de Miragaia. O rio da Vila formava-se de dois pequenos riachos que se uniam em frente aos Congregados e rio Frio nasce no Carregal, vindo ao Douro pelo vale das Virtudes.

4 - D. Mafalda, filha de D. Sancho I e tia de D. Sancho II, tinha o título de rainha por ter sido rainha de Castela, ainda que por um pequeno período de tempo dado ter sido repudiada pelo marido. Voltou a Portugal, entrando no mosteiro de Arouca, onde jaz.

5 - Após esta doação, entre os anos de 1239 e 1247, vários particulares com bens adstritos à mesma igreja foram passando as suas propriedades para a mão da sede portuense. Pelo menos até 1241 os motivos das doações são em vários dos documentos, «ob gratiam Fratrum Predicatorum» e num único «ad preces fratrum predicatorum».

 

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Bibliografia destacada: Scriptores et Notatores - produção documental da Sé do Porto 1113-1247, da autoria da Dr.ª Maria João Oliveira e Silva.