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O convento de S. Domingos do Porto: para a memória de um lugar

Este blogue é um livro. Para melhor entendimento desta afirmação, convido todos os que aqui chegam pela primeira vez a ler a 'Nota Introdutiva', na primeira publicação.

Em que local se fundou o convento?

por Nuno Cruz, em 25.10.17

Voltamos a 1238. Lembram-se os caros leitores como deixamos os nossos frades? Avivemos: em março desse ano já os primeiros dominicos se encontravam no burgo em grande afã construtivo e necessitados de toda a ajuda possível; é que naquele tempo, não tenhamos dúvidas, os mendicantes metiam literalmente a mão na (arga)massa. Para o ilustrar vejamos esta passagem de Fr. Luis de Sousa, que embora se referindo a uma parte da vida de Fr. Gil de Santarém, não fugirá muito da realidade da época: «... passou a caso pelo sítio em que os frades de S. Domingos [de Palência] andavam atualmente rompendo paredes em umas casas velhas, e levantando outras para comporem seu conventinho: viu ferver a obra, e nela amassando cal, e carregando pedras cobertos de pó, e caliça homens, que no gesto, e no jeito, mostravam não haver nacido para taes misteres.».

 

Embora nas constituições dominicanas que regiam a vida das suas comunidades existissem regras bem definidas sobre como poderiam as mesmas levantar as suas casas, a verdade é que, pelo menos no nosso país, os conventos foram fundados aproveitando instalações pré-existentes fossem elas hospedarias, ermidas ou simples casas de habitação. Ainda assim essas instalações necessitavam de ser adaptadas pois destinavam-se a albergar uma comunidade de homens que dali fariam a sua casa (não obstante durante o século XIII a vida de um frade mendicante ser bastante itinerante).

 

Mas, onde ficava esta igreja consagrada com casas em seu redor dispostas em quadra, que o bispo lhes doara? Embora a resposta seja fácil quanto ao local, não é fácil de responder quanto ao que e como era aquela estrutura antes dos dominicanos ali se instalarem. É bastante provável que a ermida da Nossa Senhora da Escada fosse a igreja que o bispo oferecera. Situada no topo de uma escada íngreme e aparentemente rodeada de construções em quadra; estas instalações não vem referenciadas em documentos anteriores, pelo que talvez nunca venhamos a saber a época a que remontavam e que funções desempenhavam antes da Ordem dos Pregadores delas tomar posse. A hipótese colocada pelo douto historiador Dr. Ferrão Afonso, aponta para a possibilidade de aquelas estruturas constituírem a albergaria novae de Portu, assim mencionadas no testamento do bispo D. Fernando Martins em 118. (1)

 

O convento implementou-se perto de um caminho de acesso à cidade, «prope viam quae tendict ad suburbium de Miragaya»(2); isto é, um caminho que vindo da cidade descendo a rua da Bainharia virava à esquerda na travessa do mesmo nome e passando a ponte de S. Domingos na chamada cruz (3) de S. Domingos (onde já existiam azinhagas que viriam a dar mais tarde a rua da Biquinha e a das Congostas) iniciava a subida e prosseguia rente ao monte da Vitória, acompanhando sensivelmente o trajeto das escadas do mesmo nome bem como a rua da Vitória no seu troço junto a Belomonte. Há época, casas por ali é coisa que quase não existia como vamos ver mais à frente aquando das compras de terrenos que os dominicos fizeram para alargarem a sua propriedade.

 

Abaixo, com a ajuda do googlemaps tento dar uma ideia do local:

 

conventoinicial.jpg

esta área da cidade, hoje tão central, seria em 1238 ainda praticamente um ermo com escasso povoamento onde imperavam azinhagas, vinha, horta e carvalhal. O E representa o local onde se situava a ermida de N.ª Sr.ª da Escada e o C a cruz de S. Domingos (que obviamente só terá este nome depois de surgir o convento). A linha roxa representa sensivelmente o caminho que seguia para o subúrbio de Miragaia.

 

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1- ver A imagem tem de saltar: a igreja e o Porto no século XVI (1499-1606) daquele autor, p. 26, nota 109.

2- extraído de um documento do cartório do convento de 1307 referente a uma protestação a uns pedreiros.

3 - cruz tem aqui o significado de encruzilhada, ou mais modernamente, cruzamento.