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O convento de S. Domingos do Porto: para a memória de um lugar

Este blogue é um livro. Para melhor entendimento desta afirmação, convido todos os que aqui chegam pela primeira vez a ler a 'Nota Introdutiva', na primeira publicação.

A compra dos terrenos (introdução)

por Nuno Cruz, em 04.02.18

Causará algum espanto ao leitor que este assunto aborde pela primeira vez, que uma das zonas mais centrais da cidade do Porto fosse por vários séculos propriedade de dois conventos: o convento de S. Domingos e o Convento de S. Francisco. É no dominicano, obviamente, que iremos centrar a nossa atenção. Com efeito este cenóbio foi proprietário de uma grande parcela de terreno onde tiveram sua horta e pomar, da qual tiraram rendimento "arrendando" parte dela. (1)

 

As plantas mais antigas da cidade, que ainda mostram a cerca dominicana, não o fazem na realidade em toda a sua extensão posto que todas foram elaboradas já no século XIX. De facto, até ao início do século XVI ela era bem maior, englobando terrenos que foram absorvidos pela crescente urbanização. Assim, a parte superior da rua Comércio do Porto, uma boa parte da rua de Belomonte até ao largo de S. Domingos junto ao cunhal do edifício do hotel A.S. 1829 eram hortas e pedreira pertencente ao convento. Também a rampa que hoje une o mesmo largo à rua Mouzinho da Silveira teve casas, dessa forma criando dois pequenos arruamentos já desaparecidos: a rua da Ponte de S. Domingos e a viela da Palma. Seguia depois pela rua das Congostas, do lado do convento, quase até ao cunhal da rua do Infante D. Henrique, onde hoje está o jardim. Mas atentemos na imagem, que melhor nos demonstra esta realidade passada:

 

terren.jpg

 

A amarelo temos representada uma aproximação à extensão máxima da cerca dos dominicanos, alcançada no final do século XIII. Sofreu um primeiro corte a sul para a construção de rua do Infante D. Henrique, cerca 1395 (pelo que é provável que na realidade o terreno ainda se encaminhasse mais para sul do que aqui se vê). A vermelho temos representada a dimensão com que ficou cerca de 1525, após a coroa ter ordenado a abertura de várias novas ruas na cidade bem como à iniciativa urbanizadora do próprio convento. Isto veio subtrair uma grande fatia de terreno à sua cerca. Para ajudar o leitor no reconhecimento do terreno, assinalei alguns locais/edifícios notáveis na paisagem:

1 - Palácio das Artes; 2 - Mercado Ferreira Borges; 3 - Praça do Infante D. Henrique; 4 - Palácio da Bolsa; 5 - Hospital da Ordem Terceira de S. Francisco; 6 - Miradouro da Vitória.

 

Optei por não marcar, para não criar confusão visual, os caminhos medievais que existiam ladeando esta cerca. Assim, tínhamos a O a azinhaga que ia para S. Nicolau (desativada no século XVI), a E a azinhaga que se tornará na rua das Congostas (obliterada no século XIX) e a N o caminho que ia para Miragaia (que corresponderia a um caminho aproximado ao traçado da rua de Belomonte). (2)

 

Os Padres Pregadores tiveram o cuidado - ou a necessidade - de registar e trasladar por mais de uma vez a documentação referente à compra destes terrenos. Os mais antigos traslados datam de 1319. Esta data é importante, pois estando os frades com alguns problemas com o Cabido face às novas obras que andavam a fazer de ampliação das suas instalações, poderá querer dizer que estes documentos - compilados em apenas dois pergaminhos de grande dimensão - teriam sido produzidos para uso como prova perante o Vigário Geral, como veremos mais para a frente. (3)

 

Nas próximas publicações vamos explorar estas compras e doações, para dentro do possível aproximar as referências que estes documentos nos legaram, com a atualidade. E para isto peço ao leitor que tenha sempre em cont, que a cota de toda a área compreendida pelo menos entre a rua Ferreira Borges e Mouzinho da Silveira e a rua do Infante D. Henrique a o largo de S. Domingos, foi bastante rebaixada com os terraplanos do século XIX.

 

___________

1 - Optei pelo uso do verbo atual para uma mais fácil compreensão, ainda assim advirto que uma e outra não são equivalentes (pf ver os comentários a esta publicação).

2 - Investigadores como o Dr. Manuel Real ou o Dr. Ferrão Afonso, colocam a possibilidade de o convento dominicano ter sido construído no local do antigo Forum da Cale romana, tendo em conta algumas características do local mencionadas na documentação que até hoje nos chegou.

3 - Os outros traslados são, o já referido anteriormente do século XVIII e um outro, ainda do século XV, que se encontra no Livro das Capelas, um volume de grande dimensão depositado no Arquivo Distrital do Porto que tem a particularidade de estar completamente chamuscado nas suas pontas, provável consequência de um incêndio que o convento sofreu.

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