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O convento de S. Domingos do Porto: para a memória de um lugar

Este blogue é um livro. Para melhor entendimento desta afirmação, convido todos os que aqui chegam pela primeira vez a ler a 'Nota Introdutiva', na primeira publicação.

1640 - Ano da restauração... do alpendre de S. Domingos!

por Nuno V. Cruz, em 06.01.19

Vão-me desculpar os leitores deste tão específico blogue por não ter dado continuidade tão breve como deveria a ele e por isso deixar a minha ausência ter-se arrastado por longos meses. E mais me desculparão certamente por ainda não ser desta vez que chamo para aqui os tão famigerados pergaminhos com as compras dos terrenos. Acreditem contudo que não irão ficar dececionados com o que hoje aqui coloco.

 

No ano de 2017 tive a felicidade de ver publicado um artigo que elaborei para a revista O Tripeiro sobre o alpendre dominicano e a sua relevância para a cidade, ainda que nele não constasse menção alguma ao documento que abaixo poderão ler, uma vez que só o descobri posteriormente.[1] Creio que ele é realmente inédito, mas não o afirmo categoricamente uma vez que já no passado me deparei com documentos similares já publicados![2] Surge lançado a folhas 44/46 do 3º volume (de uma série de 4) de arrematações de obras a cargo da Câmara Municipal, hoje fielmente preservados no Arquivo Municipal do PortoSem mais delongas apresento o seu conteúdo, fazendo um pequeno comentário posteriormente.

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Rematação do alpendre de São Domingos a Domingos Luís em preço de setecentos e setenta mil [reis de] pedraria e carpintaria.

 

Ano do nascimento de Nosso Senhor Iezu Cristo de mil seiscentos e quarenta anos aos dezasseis dias do mês maio[3] do dito ano nesta cidade do Porto no adro de S. Domingos aonde por se haverem lançado pregões pera acudirem os oficiaes pera lançarem e rematarem da obra dos ditos alpendres por haver andado a pregão há maes de trinta dias foram juntos o Licenciado Francisco de Faria Juiz de Fora e os vereadores com o procurador da cidade abaxo assinados foi tornado a andar a pregão a dita obra e por não haver quem menor lanço fizesse do que Domingos Luís que deu e lançou setecentos e setenta mil [reis] com obrigação de a fazer na forma dos apontamentos, lhe foi rematada e se obrigou a dar fiança em termo de oito dias a contento deles Juiz Vereadores e sob pena de pagar quinhentos cruzados da cadeia de que se fez este termo que assinou Bernardo Pereira Camelo e Sá.

[ASSINATURAS]

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Apontamentos da dita obra que são as três naves defronte da portaria aonde está o altar e cruzeiro, de pedraria e carpintaria.

 

Primeiramente se desfarão os quatro arcos fronteiros à rua, e pela mesma maneira, os outros quatro do segundo lanço da ilharga do altar por estarem desaprumados.

E se lhes porão as pedras e fiadas necessárias nos pilares por estarem alguas gastadas levantando-se na forma que estavam feitos.

Far-se-ão os canos de novo os quais serão de calões dobrados, e muito bem feitos com suas correntes necessárias.

E assim maes se farão todos os espigões de calões novos bem pincados[?] e se farão os rufos necessários.

Por-se-há toda a telha que faltar pera o telhado o qual se telhará pela forma que hoje está com brassuras[?], ou sem elas se os vereadores da Câmara quizerem porém sempre serão as telhas da beira que são de fora entopadas em cal, assim as de baxo como as de cima e quem tomar esta obra porá cal, saibro, e tudo o maes necessário pera ela.

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Aspeto atual do edifício que encapsulou o espaço onde existia o alpendre do convento dominicano. Construído em meados do século XVIII para ser o dormitório novo dos frades, passou em 1865 a propriedade do Banco de Portugal (que já o detinha por arrendamento desde a extinção das Ordens religiosas); datam desta fase a expansão para sul, as fachadas E e O (1872 e 1869 respetivamente) bem como a remodelação do andar térreo do edifício (1888). Mais conhecido no imaginário coletivo portuense como Edifício Douro por ter alojado a Companhia de Seguros Douro, tomou em 2009 o nome de Palácio das Artes, estrutura afeta à Fundação da Juventude (imagem AAPH ARQUITECTOS).

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Por-se-hão em cada nave das três do alpendre da cruz dez tirantes novos por estarem gastados os velhos e se estiverem alguns dos velhos bons os porão não sendo emendados nem em pouco nem em muito ------ far-se-ão outras tantas tisouras sobre eles as quais serão encarnadas[?] nos tirantes e por-se-hão a cada encarna um arco fixo pregado pera maes segurança / pera estas tisouras se aproveitarão dos tirantes velhos, e assim pera as terças e cumes e frechaes os que forem bons, e puderem servir, e pera os que faltarem os porão novos.

Por-se-hão todos os barrotes que faltarem aproveitando-se os que puderem servir, e serão os novos de boa entalha[?] na grossura e mui direitos como toda a maes madeira e serão postos na obra do meio de um, ao meio de outro dous palmos, e terão as emandas trocadas sobre as terças para ficarem mais fortes.

Por-se-há toda a ripa nova a qual não será da feira senão mandadas serrar de varas de castanho boas e grossas, e serão muito bem ripadas todas as três naves.

Toda esta obra será muito bem pregada com pregadura conforme a madeira e as ripas serão pregadas em todos os barrotes. Os tirantes passarão as grossuras das paredes de ambas as partes e das partes de dentro sobre os arcos do meio serão gateados entre um e outro, com um gato, ou chapa que tenha de comprido dez palmos e largura conveniente, e grossura ao comprimento, a qual será mui bem pregada em ambos os frechaes, e quanto diz a grossura do arco porque passam os canos por cima,     Cobrirão esta chapa e ferro com chumbo pera o não gastar a humidade do cano. // Nas pontas dos tirantes assim da parte da rua, como da parte do mosteiro porão em cada um seu gato com sua unha pregada no frechal pla mesma maneira forte e segura,    Na nave e coberto sobre a porta travessa se porá um tirante novo, e assim maes se consertará a canela[4] que fica sobre ele, para a parte do alpendre da cruz e toda a madeira necessária e pregadura. // De pedraria segurarão os dous arcos de pedras, assim o de dentro pera onde está posto o cano da água, como o de fora piqueno em que encontram os arcos do dito alpendre da porta travessa, E este seguramento será com suas linhas de ferro assim em um arco como no outro, e deste modo ficarão seguros, e se fará o telhado de novo conforme a obra que se consertar de madeira. / Pera tudo não darão eles Juiz e Vereadores maes que o dinheiro, e tudo maes porão os oficiaes a contento da dita Câmara e as duas naves conteudas no primeiro apontamento serão feitas de novo derribadas as duas linhas em que fala o último apontamento serão de comprido do vão dos arcos  /  os quais apontamentos são os que andaram a pregão com a dita obra que eu escrivão trasladei aqui bem e fielmente cujo treslado também dei ao dito Domingos Luis a quem a dita obra foi rematada para na conformidade deles fazer a escritura de sua obriga, em que ?[5] os trasladaria também para clareza da dita rematação e obra. Bernardo Pereira Camelo escrevi»[6]

[ASSINATURAS]

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Assim vemos que embora o alpendre tivesse sofrido obras importates de reedificação em 1625, logo pelos anos seguintes os frades se continuaram a queixar do mau estado dele. Não será descabido pensar que a obra de 1625 recaísse sobretudo na área do alpendre voltada a norte (zona 'profana'); uma vez que esta obra de 1640 aparenta ter recaído sobre a área do alpendre voltada a poente (zona 'sagrada'), dada a referência das «três naves defronte da portaria aonde está o altar e cruzeiro» que cobriam parte da fachada principal da igreja. Isto não obstante surgir no texto a referência à porta travessa, área que faria ligação poente/norte, sobre a qual aliás, os frades se queixam logo em 1628.

Que a obra foi executada não resta dúvida uma vez que na última folha deste documento encontram-se lançados cinco pagamentos dela: três de 1640, uma de 1641 e outra de 1644! Assim, podemos verificar que a última intervenção de vulto com vista à conservação desta estrutura terá ocorrido no início da década de 40 do século XVII. Cinquenta anos depois tudo mudaria e teria início a longa contenda entre a Câmara e o convento, que só terminaria com o acordo para fechar o alpendre transformando-o em um bonito edifício, como se comprova pela sua fachada norte, que subsiste.

 

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1 - É no que dá apenas poder fazer pesquisas nas férias do meu ofício regular de empregado de escritório, as coisas vão-se descobrindo mas... 

2 - Refiro-me às arrematações publicadas em parte pelo Dr. Ferrão Afonso na revista Museu, que englobam obras relacionadas com o alpendre dominicano.

3 - Não tenho completa certeza de que este seja o mês correto.

4 - É duvidoso que seja esta a palavra correta. Aparenta ser «... consertarâtaCanella...» o que ali se encontra escrito, o que não parece fazer sentido.

5 - Abreviatura que não lobriguei descortinar mas sem relevância para a compreensão do texto.

6  - As quatro últimas linhas deste documento encontra-se acompanhado por uma pequena nota de pé de página que aqui coloco ipsis verbis: «Na escriptura q fez joaõ de ar.º q está em poder do sindico, q lhe embargou joaõ aluz nogueira, estão trasladados os apontam.tos».