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O Convento de S. Domingos do Porto

PARA A MEMÓRIA DE UM LUGAR

Mas afinal, ardeu ou não completamente a igreja dominicana?

por Nuno V. Cruz, em 23.02.20

Em 24 de abril de 1778 a igreja gótica dominicana sofreu um incêndio que a inutilizou para os Ofícios Divinos. Os frades removeram o Santíssimo Sacramento para a casa De Profundis, para com alguma decência poderem continuar o culto e aproveitaram a ocasião, pedindo à rainha a cedência da antiga capela dos extintos Terceiros. Este pedido, atendido anos depois, está na origem da última grande guerra[1] entre os frades de S. Domingos e os seus antigos terceiros, agora travestidos na Celestial Ordem Terceira da Santíssima Trindade[2]. Resumindo para esta publicação: sabido é que a capela acabou por ser entregue aos dominicanos e seguiu sendo a sua igreja conventual até à extinção em 1832.

 

Mas afinal, ardeu ou não completamente a igreja de S. Domingos do Porto naquele dia? Os frades sempre alegaram a ruína dela. Os antigos terceiros, pelo contrário, mantinham que apenas parte do seu telhado havia sido afetado, e que o incêndio fora provocado criminosamente.[3] Ora, com base no documento que abaixo transcrevo, forçoso é dar alguma razão aos antigos terceiros. Trata-se do auto de vistoria à igreja, feita pouco após o incêndio, e a pedido dos "irmãos terceiros da Ordem extinta dominicana". É, sobretudo, um documento interessante para vermos o real estado da igreja após o incêndio.

 

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«Em cumprimento do despacho retro do Mto. Rdo. Doutor Provisor deste Bispado do Porto Nos Notarios Apostolicos de Sua Santidade dos aprovados na forma do Sagrado Concílio Tridentino, e Constituiçaõ deste Bispado Joze Rodrigues Pereyra Baralha, e o Reverendo Leonardo Joze dos Santos Conego da Insigne Collegiada de Cedofeita, rezidentes nesta cidade do Porto Certificamos, atentamos e fazemos certo em como fomos a Igreja dos Padres Dominicos desta cidade do Porto para examinarmos as ruinas cauzadas pelo incendio que sucedeo na mesma igreja, e entrando nos notarios na dita averiguaçaõ requerida na petição retro, achamos que o referido incendio, somente arruinou o tecto do meio do corpo da Igreja, q cahio em baixo, e o Altar colateral de Santa Maria Magdalena, que estava guarnecido com retabulo de madeira liza pintado; ficando toda a capella mor

 

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igreja de S. Domingos em Lisboa após o incêndio de fevereiro de 1959 . a destruição da sua congénere portuense cerca de duzentos anos antes terá sido menor . a partir de que grau de destruição se pode alegar ruína? (fonte: SIPA)

 

illeza, assim como as duas Naves dos Lados da Igreja com todos os seus Altares e retabulos Livres, sem o minimo detrimento, e ??[4] igualmente ficou illeza a Samchristia, caza do Capitulo onde faziaõ os officios divinos, dormitorios, e tudo mais pertencente ao convento dos ditos Religiozos, e neste estado, como de antes se achava excepto o referido tecto, e altar, e por assim o termos visto, e examinado o atestamos de que damos nossas fés, e para constar da referida verdade, onde convenha passamos a presente por um de nos feita, e por ambos assignada com o nosso signal publico e razo de que uzamos nesta dita cidade do Porto aos doze dias do mes de Junho do anno de mil sete centos, e setenta, e oito, e Eu Joze Rodrigues Pereyra Baralha Notario Apostolico a escrevy, e assignei em publico e razo»

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Basta este simples documento de vistoria para concluir que a igreja conventual dominicana não se encontrava verdadeiramente arruinada. E que, se lhe acudissem a tempo, seria ainda possível recupera-la com um custo reduzido. Mas isso não aconteceu e os frades lá conseguiram levar a sua avante e ficar com a capela dos antigos terceiros...

 

O documento de onde foi colhida esta vistoria tem mais alguns pormenores interessantes para a história desta guerra aberta entre os supostos promotores do amor ao próximo. Mas esses ficarão para uma outra publicação.

 

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1 - Guerra é mesmo a palavra certa, senão veja-se o que nos diz um documento depositado na Torre do Tombo: «Dizem a maior parte dos moradores do Porto, principalmente os que foram terceiros de S. Domingos, cuja Ordem Terceira se extinguiu à instância do Sr. Rei D. José o primeiro, pelas bulhas escandalosas, desordens públicas, pancadarias e continuados litígios, em que sempre andavam os religiosos com os seus terceiros...»

2 - E estes últimos levaram-na para lá da extinção dos dominicos, quando pediram ao governo a igreja velha do convento como indemnização por "perdas e danos", como atualmente se diria, em 1835!

3 - Colocado, diziam, por um serviçal do convento que acabou por desaparecer sem deixar rasto...

4 - Palavra de difícil compreensão por se encontrar com borrão de tinta.