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O convento de S. Domingos do Porto : para a memória de um lugar

Este blogue é um livro. Para melhor entendimento desta afirmação, peço a todos que aqui chegam pela primeira vez para lerem a 'Nota Introdutiva' na primeira publicação.

A compra dos terrenos (introdução)

por Nuno Cruz, em 04.02.18

Causará algum espanto ao leitor que este assunto aborde pela primeira vez, que uma das zonas mais centrais da cidade do Porto fosse por vários séculos propriedade de dois conventos: o convento de S. Domingos e o Convento de S. Francisco. É no dominicano, obviamente, que iremos centrar a nossa atenção. Com efeito este cenóbio foi proprietário de uma grande parcela de terreno onde tiveram sua horta e pomar, da qual tiraram rendimento alugando parte dela. (1)

 

As plantas mais antigas da cidade, que ainda mostram a cerca dominicana, não o fazem na realidade em toda a sua extensão posto que todas foram elaboradas já no século XIX. De facto, até ao início do século XVI ela era bem maior, englobando terrenos que foram absorvidos pela crescente urbanização. Assim, a parte superior da rua Comércio do Porto, uma boa parte da rua de Belomonte até ao largo de S. Domingos junto ao cunhal do edifício do hotel A.S. 1829 eram hortas e pedreira pertencente ao convento. Também a rampa que hoje une o mesmo largo à rua Mouzinho da Silveira teve casas, dessa forma criando dois pequenos arruamentos já desaparecidos: a rua da Ponte de S. Domingos e a viela da Palma. Seguia depois pela rua das Congostas, do lado do convento, quase até ao cunhal da rua do Infante D. Henrique, onde hoje está o jardim. Mas atentemos na imagem, que melhor nos demonstra esta realidade passada:

 

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A amarelo temos representada uma aproximação à extensão máxima da cerca dos dominicanos, alcançada no final do século XIII. Sofreu um primeiro corte a sul para a construção de rua do Infante D. Henrique, cerca 1395 (pelo que é provável que na realidade o terreno ainda se encaminhasse mais para sul do que aqui se vê). A vermelho temos representada a dimensão com que ficou cerca de 1525, após a coroa ter ordenado a abertura de várias novas ruas na cidade bem como à iniciativa urbanizadora do próprio convento. Isto veio subtrair uma grande fatia de terreno à sua cerca. Para ajudar o leitor no reconhecimento do terreno, assinalei alguns locais/edifícios notáveis na paisagem:

1 - Palácio das Artes; 2 - Mercado Ferreira Borges; 3 - Praça do Infante D. Henrique; 4 - Palácio da Bolsa; 5 - Hospital da Ordem Terceira de S. Francisco; 6 - Miradouro da Vitória.

 

Optei por não marcar, para não criar confusão visual, os caminhos medievais que existiam ladeando esta cerca. Assim, tínhamos a O a azinhaga que ia para S. Nicolau (desativada no século XVI), a E a azinhaga que se tornará na rua das Congostas (obliterada no século XIX) e a N o caminho que ia para Miragaia (que corresponderia a um caminho aproximado ao traçado da rua de Belomonte). (2)

 

Os Padres Pregadores tiveram o cuidado - ou a necessidade - de registar e trasladar por mais de uma vez a documentação referente à compra destes terrenos. Os mais antigos traslados datam de 1319. Esta data é importante, pois estando os frades com alguns problemas com o Cabido face às novas obras que andavam a fazer de ampliação das suas instalações, poderá querer dizer que estes documentos - compilados em apenas dois pergaminhos de grande dimensão - teriam sido produzidos para uso como prova perante o Vigário Geral, como veremos mais para a frente. (3)

 

Nas próximas publicações vamos explorar estas compras e doações, para dentro do possível aproximar as referências que estes documentos nos legaram, com a atualidade. E para isto peço ao leitor que tenha sempre em conta, que a cota atual de toda a área compreendida, pelo menos, entre a rua Ferreira Borges e Mouzinho da Silveira e a rua do Infante D. Henrique a o largo de S. Domingos, foi bastante rebaixada com os terraplanos do século XIX.

 

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1 - O termo mais correto seria aforando, contudo optei pelo uso da expressão atual para uma mais fácil compreensão. Ainda assim advirto que uma e outra não são totalmente equivalentes.

2 - Investigadores como o Dr. Manuel Real ou o Dr. Ferrão Afonso, colocam a possibilidade de o convento dominicano ter sido construído no local do antigo Forum da Cale romana, tendo em conta algumas características do local mencionadas na documentação que até hoje nos chegou.

3 - Os outros traslados são, o já referido anteriormente do século XVIII e um outro, ainda do século XV, que se encontra no Livro das Capelas, um volume de grande dimensão depositado no Arquivo Distrital do Porto que tem a particularidade de estar completamente chamuscado nas suas pontas, provável consequência de um incêndio que o convento sofreu.

O Alpendre de São Domingos n' O Tripeiro

por Nuno Cruz, em 09.01.18

Agora que está nas bancas a edição de Dezembro da revista O Tripeiro, já poderão ficar a conhecer a parte final do meu artigo que nela vem sendo publicado e ficar a saber um pouco mais sobre a história mais "recente" do edifício que atualmente alberga o Palácio das Artes. Espero que tenham apreciado todo o texto. Estou ao vosso dispor para alguma questão que sobre o assunto queiram colocar.

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Uma memória (quase) perdida

por Nuno Cruz, em 21.12.17

Caro leitor, cá estou eu a pregar-lhe nova finta! Antes de entrarmos nas aquisições de terreno que os Pregadores fizeram, parcela a parcela, para constituírem uma boa horta para sua subsistência, vamos recordar um momento da vida do convento que teve lugar no século XVI. É a grande vantagem de ter um livro feito blogue... cada época fica sempre disponível à distância de um click.

 

No ano de 1576, aí por maio, realizou-se no convento de S. Domingos do Porto um acontecimento raro. Com efeito, este convento foi sempre de segunda importância, por assim dizer, dentro da província a que pertencia e nele não terão ocorrido factos de grande monta nem por ele passado personagens ou clérigos cobertos de glória. Foi vivendo as vicissitudes dos vários tempos que atravessou, foi evoluindo, modificando...

Ora, naquele ano quiseram os homens que ocorresse o capítulo provincial da Ordem dos Pregadores neste convento. Era provincial Fr. Estevão Leitão que em conjunto com os seus definidores achou por bem convidar o Arcebispo de Braga para o concílio. Este convite não era despropositado: pois quem ocupava aquele cargo era o famoso Fr. Bartolomeu dos Mártires, um dominicano.

 

Homem humilde e verdadeiro servo de Deus, Fr. Bartolomeu aceitou o convite e deslocou-se à nossa cidade para se unir em fraterna convivência com os seus irmãos. Quis entrar pela calada da noite para a cidade não lhe preparar pomposas manifestações de alegria e regozijo por o receber dentro das suas portas... mas em vão: todos o esperavam; todos o queriam ver. O bispo do Porto, D. Aires da Silva[1] convidou-o a pernoitar no seu Paço, mas o frade/arcebispo preferiu a companhia dos seus e foi no convento do Porto que repousou da sua caminhada desde Braga.

 

Durante o capítulo foi-lhe requisitado que pregasse no púlpito, ao que ele astuciosamente se escusou, evocando falta de hábito em o fazer com a consequente perca de destreza no uso da palavra em tão importante função. Mas, no chamado capítulo de culpis, requisitado de novo para a pregação, não teve outra opção senão faze-lo, em nome do voto de obediência que todo o dominicano professa.

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Fr. Bartolomeu dos Mártires (ao lado esquerdo podemos ver as armas da Ordem dos Pregadores com o seu lema: Laudare, Benedicere, Praedicare).

 

E agora começa o episódio que Fr. Luís de Sousa tão bem narrou. É que, no dia seguinte, quando subiu ao púlpito, já a notícia se espalhara pela cidade e «foi cousa nunca vista o concurso de gente na igreja a vê-lo e ouvi-lo». Depois, conta ainda Fr. Luís de Sousa um milagre que terá ocorrido aquando do discursar do Arcebispo. Entre a verdade e a lenda, a verdade é que se trata de um dos poucos episódios descritos que terão ocorrido dentro daquela igreja que o Porto esqueceu e por isso merece ser recordado aqui:

 

«Neste sermão se conta que lhe aconteceu aquele caso tão raro, que podendo ser o caso, tem muito de prodígio espantoso, quando não quisermos conceder que nele houvesse milagre, ou revelação, que é bem de crer que a houve. Veio a tratar de muitos males que causa em ũa alma o torpe vício da sensualidade. Discorrendo por eles encarou pera um lugar onde estava assentada ũa mulher que nas visitações do bispo trazia mau nome; e não tirou os olhos do lugar, nem dela por um espaço grande apertando a matéria com tanta energia que não faltava mais que nomeá-la por seu nome. Estava a mulher corrida (e não devia ser do mais vil do povo) parecendo-lhe que toda a igreja seguia o arcebispo em pregar os olhos nela: senão quando prosseguindo o arcebispo a matéria, e querendo fazer ũa figura de retórica com propor um exemplo vivo em pessoa e nome, acode com o nome da mesma mulher e começa a nomeá-la, e chamar por ela ũa e muitas vezes. Quando a pobre ouviu o seu nome, acabou de se persuadir que com ela o havia o arcebispo, e que não podia ser senão, que tinha novas de sua vida, e não sintindo que remédio tomasse em tamanha afronta como imaginava em meio de toda ũa cidade, que não era menos o auditório, deixou cair o manto sobre os peitos, e assi esteve até ao fim do sermão desfazendo-se em lágrimas. E não era bem acabado quando se levantou e saiu da igreja julgando e assentando consigo, que quantos nela ficavam, eram já testemunhas do que se passava em sua consciência.

O bispo ficou tão cheio de espanto do que ouviu, que quasi não dava crédito a suas mesmas orelhas. Chamou dispois o escrivão da visitação que também esteve presente, benzia-se o homem e fazia pasmos de como podia ser ter o arcebispo notícia do que se passava no segredo da visitação, e do seu escritório: e se a não tinha, como era possível falar tão determinadamente, e tanto ao certo».

 

É este sem dúvida um facto mais ou menos lendário ainda que de agradável leitura; o que não podia ser de outra maneira dado ter saído da pena de um autor de uma prosa deliciosa; versando a vida de um homem superior. Um homem que, em Trento, teve a coragem de dizer que os ilustríssimos e reverendíssimos cardeais ali presentes, também haviam mister de uma ilustríssima e reverendíssima reformação! Assim, sem mais! Foi esse grande homem, um incansável calcorreador da sua arquidiocese para se inteirar continuamente de melhorar seu estado, que passou pelo Porto naquele longínquo maio de 1576 e pregou desde o fundo da sua alma, ali onde agora pernoitam e passeiam turistas.

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1- este bispo foi um dos que tombou em Alcácer Quibir em 1578, junto de El-Rei D. Sebastião.

 

Bibliografia: Vida de Frei Bartolomeu dos Mártires por Fr. Luís de Sousa, editado primeiramente em 1619.

Imagem: Wikipedia

O Alpendre de São Domingos n' O Tripeiro

por Nuno Cruz, em 08.12.17

Saiu este mês a edição de novembro da revista O Tripeiro, trazendo entre outros interessantes artigo, a segunda parte do meu contributo para a divulgação de alguns aspetos - em boa parte inéditos - relacionados com aquela estrutura, tão fundamental durante séculos para a cidade. Espero que gostem!

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Padecimentos

por Nuno Cruz, em 28.11.17

Instalados que estavam os frades de S. Domingos junto do pequeno burgo do Porto e iniciadas as obras de construção/adaptação das casas e igreja cedidas pelo bispo, seria de esperar que esta nova casa florescesse no ministério para a qual se criara. Contudo cedo, muito cedo, ainda durante aquele ano, foram os frades envolvidos em querelas com o clero local tal como os franciscanos que já sofriam a ira daqueles prelados desde pelo menos o ano anterior[1]. Quer para uma quer para a outra ordem mendicante serve bem as explicações que Fr. Manuel da Esperança e Fr. Luís de Sousa dão nas suas respetivas crónicas. No entanto opto aqui pelas palavras do dominicano do séc. XVIII que escreveu o Livro do Foral do seu convento:

 

« Pelos annos de 1238 pouco mais, ou menos Vendo o Cabido desta cidade, a muita devoçaõ, que os moradores della, que na quele tempo eraõ todos freguezes da Sêe, tinhaõ aos Religiosos deste convento, de sorte, que dezamparando a sua Parrokial todos se queriaõ sepultar no nosso convento concorrendo a esta igreja com suas obradas e esmolas, e que estes interesses lhes faltavaõ lá na sua Cathedral, começaraõ a inquietar os Religiosos com tanta paixaõ, que fazendo grandes queixas ao Bispo D. Pedro Salvador, este insuflado pello Calbido começou a proceder contra os Religiosos com tanta tirania, que logo lhes prohibiu o pregar, e confessar, e dizerem missa, embargandolhes as obras da Igreja, e Convento, pondo excomunhaõ a todos os que trabalhassem nellas, revogando todas as doações feitas ao Convento, annullando tambem todas as compras, que os Religiosos tinhaõ pago mettendose de posse de alguas propriedades, que já possuia o Convento, em fim buscando todos os meyos com que mais molestasse aos Religiosos athe que dezesperados deixassem esta cidade, e todo o seu Bispado, querendo assim lançar fora de si, e seu Bispado aos mesmos, que com tanto zelo, e instancia tão honrradamente chamou para a sua companhia... »

 

Ainda em 1238 os dominicanos remetem uma missiva para Roma, dando conhecimento da situação e pedindo expedita resolução. Gregório IX reagiu enviando um Breve ao Arcebispo, Deão e Chantre da arquidiocese de Braga para que, como mediador, colocasse um ponto final na situação. Apenas quando este fez ver a D. Pedro Salvadores que teria de fazer o que o Papa ordenava, é que foram enviados junto dele os seus representantes, alcançando-se finalmente um acordo[2].

Igualmente o rei D. Sancho II quis ajudar os frades e em janeiro de 1239 passou um documento onde refere que mandava fazer o convento em prol da sua alma, recebendo-o por isso debaixo do seu amparo; estipulando as sanções a quem, de alguma forma, prejudicasse os frades e/ou os seus criados/operários. Este diploma, estou em crer, insere-se na intensa disputa existente entre a Mitra e a Coroa sobre qual era o verdadeiro término do couto que D. Teresa doara ao Bispo do Porto em 1120. Disputa essa que, se adormecida durante o reinado de D. Afonso II, não estava de todo extinta, pelo contrário, vai-se prolongar bem para além da época que aqui nos interessa! É que, quer o convento franciscano, quer o dominicano, se pretendiam instalar (como efetivamente aconteceu) numa área entre o rio da Vila e o rio Frio, terreno esse disputada por ambos os poderes[3].

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A travessa da Bainharia é o único resquício que nos ficou da rua da ponte de S. Domingos, que remontava ao início do século XVI. Atravessando essa mesma ponte (sensivelmente onde na foto se vê o tuktuk), subia-se a ladeira chegando no seu topo ao convento dominicano. No século XIII, este caminho para Miragaia, ainda uma rural azinhaga, fez com toda a certeza parte do calvário dominicano de indas e vindas à Sé, na tentativa de solucionar os problemas que o seu suposto protetor lhes havia criado...

 

Mas foi a doação da rainha D. Mafalda[4] de uma importante igreja que lhe pertencia, que fez com que o senhor do Porto acalmasse os ânimos em relação aos dominicanos. Com a doação dessa igreja em junho de 1239 - que tinha à época o nome de Santa Cruz de Riba Leça, sendo hoje conhecida pelo de Santa Cruz do Bispo - vieram todas as suas posses e rendimentos. O motivo é precisamente  «in recompensationem graviminis, si in aliquo ex praedicatorum Fratrum commorantione Ecclesia Portugallensis fuerit aggravata»; ou seja, para que o sr. bispo e restantes cúria episcopal não ficassem sem os seus rendimentos garantidos[5].

 

Depois de sanadas as divergências que acima resumi, poderemos dizer que em 1241 se aquietaram finalmente os frades no sítio que o bispo lhes cedera. Quanto a D. Pedro Salvadores, ainda que tenha passado à história como perseguidor quer dos dominicanos quer sobretudo dos franciscanos; é notável que tivesse, em testamento, nomeado para executor das suas últimas vontades o prior dos Pregadores, bem como Fr. Gualter (franciscano?). Morreu em 1247, não sem de dois anos antes ter feito doação de duas fontes ao convento: ambas nascendo nas hortas da Cividade onde mais tarde virá a existir o convento de S. Bento das Freiras e agora a estação de S. Bento, conforme descreve o frade anónimo do Livro do Foral de 1728:

 

«... no anno de 1245 tambem nos deu duas fontes das quais hũa nasce nas hortas, que hoje são das freiras de S. Bento ... que chamaõ da Samaritana, e a outra nasce de baixo do coro das dittas Religiosas, da qual temos a área entre o primeiro, e segundo botareo, que está da sua portaria ate as escadas da entrada da igreja, cuja doaçaõ nos confirmou o Sr. Bispo D. Vicente seu sucessor, no anno de 1293...»

 

E agora sim, na próxima publicação vamos embrenhar-nos no latim medieval dos contratos notariais! Prometo que será apresentado em "doses" suaves.

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1 - As primeiras bulas de censura enviadas pelo papa Gregório IX - uma ao Bispo a outra ao Cabido - datam de 25 de maio e 23 de junho de 1237 respetivamente. Embora a primeira carta que o mesmo papa enviara ao bispo do Porto D. Martinho Rodrigues(†1235) datasse de 20 de maio de 1233, não é certo que os franciscanos se tenham instalado logo nesse ano.

2-  Provavelmente estes desenvolvimentos deram-se já em 1239, não obstante o Breve papal datar de setembro de 1238.

3- Corresponde aproximadamente ao terreno compreendido entre a rua Mouzinho da Silveira e a igreja de S. Pedro de Miragaia. O rio da Vila formava-se de dois pequenos riachos que se uniam em frente aos Congregados e rio Frio nasce no Carregal, vindo ao Douro pelo vale das Virtudes.

4 - D. Mafalda, filha de D. Sancho I e tia de D. Sancho II, tinha o título de rainha por ter sido rainha de Castela, ainda que por um pequeno período de tempo, antes de ser repudiada pelo marido. Voltou a Portugal dando entrada no mosteiro cisterciense de Arouca, onde jaz.

5 - Após esta doação, entre os anos de 1239 e 1247, vários particulares com bens adstritos à mesma igreja foram passando as suas propriedades para a mão da sede portuense. Pelo menos até 1241 os motivos das doações são, em várias: «ob gratiam Fratrum Predicatorum» e numa «ad preces fratrum predicatorum».

 

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Bibliografia destacada: Scriptores et Notatores - produção documental da Sé do Porto 1113-1247, da autoria da Dr.ª Maria João Oliveira e Silva.

O Alpendre dominicano n' O Tripeiro

por Nuno Cruz, em 12.11.17

Já está nas bancas o número de outubro da centenária revista O Tripeiro e com ela a primeira parte do meu humilde contributo na divulgação de um tema que tenho vindo a pesquisar ao longo dos últimos anos: o convento de São Domingos. O artigo contudo versa apenas o seu famoso alpendre, depois transformado no edifício que alojou o Banco de Portugal, a Companhia de Seguros Douro e que por último adquiriu uma vida nova sob a designação de Palácio das Artes.

Espero que gostem!

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Em que local se fundou o convento?

por Nuno Cruz, em 25.10.17

Voltamos a 1238. Lembram-se os caros leitores como deixamos os nossos frades? Avivemos: em março desse ano já os primeiros dominicos se encontravam no burgo em grande afã construtivo e necessitados de toda a ajuda possível; é que naquele tempo, não tenhamos dúvidas, os mendicantes metiam literalmente a mão na (arga)massa. Para o ilustrar vejamos esta passagem de Fr. Luis de Sousa, que embora se referindo a uma parte da vida de S. Fr. Gil, não fugirá muito da realidade da época: «... passou a caso pelo sítio em que os frades de S. Domingos [de Palência] andavam atualmente rompendo paredes em umas casas velhas, e levantando outras para comporem seu conventinho: vio ferver a obra, e nela amassando cal, e carregando pedras cobertos de pó, e caliça homens, que no gesto, e no jeito, mostravam não haver nacido para taes misteres.».

 

Embora nas constituições dominicanas que regiam a vida das suas comunidades existissem regras bem definidas sobre como poderiam as mesmas levantar as suas casas, a verdade é que, pelo menos no nosso país, os conventos foram fundados aproveitando instalações pré-existentes fossem elas hospedarias, ermidas ou simples casas de habitação. Ainda assim essas instalações necessitavam de ser adaptadas pois destinavam-se a albergar uma comunidade de homens que dali fariam a sua casa (não obstante durante o século XIII a vida de um frade mendicante ser bastante itinerante).

 

Mas, onde ficava esta igreja consagrada com casas em seu redor dispostas em quadra, que o bispo lhes doara? Embora a resposta seja fácil quanto ao local, não é fácil de responder quanto ao que e como era aquela estrutura antes dos dominicanos ali se instalarem. É bastante provável que a ermida da Nossa Senhora da Escada fosse a igreja que o bispo oferecera. Situada no topo de uma escada íngreme e aparentemente rodeada de construções em quadra; estas instalações não vem referenciadas em documentos daquela época ou anteriores, pelo que talvez nunca venhamos a saber a época a que remontavam e que funções desempenhavam antes da Ordem dos Pregadores delas tomar posse. A hipótese colocada pelo douto historiador Dr. Ferrão Afonso, aponta para a possibilidade de aquelas estruturas constituírem a albergaria novae de Portu, assim mencionadas no testamento do bispo D. Fernando Martins em 1185 [1].

 

O convento implementou-se perto de um caminho de acesso à cidade, «prope viam quae tendict ad suburbium de Miragaya» [2]; isto é, um caminho que vindo da cidade descendo a rua da Bainharia virava à esquerda na travessa do mesmo nome e passando a ponte de S. Domingos na chamada cruz [3] de S. Domingos (onde já existiam azinhagas que viriam a dar mais tarde a rua da Biquinha e a das Congostas) iniciava a subida e prosseguia rente ao monte da Vitória, acompanhando sensivelmente o trajeto das escadas do mesmo nome bem como a rua da Vitória no seu troço junto a Belomonte. Há época, casas por ali é coisa que quase não existia como vamos ver mais à frente aquando das compras de terrenos que os dominicos fizeram para alargarem a sua propriedade.

 

Abaixo, com a ajuda do googlemaps tento dar uma ideia do local:

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Esta área da cidade, hoje tão central, seria em 1238 ainda praticamente um ermo com escasso povoamento onde imperavam azinhagas, vinha, horta e carvalhal. O E representa o local onde se situava a ermida de N.ª Sr.ª da Escada e o C a cruz de S. Domingos (que obviamente só terá este nome depois de surgir o convento). A linha roxa representa sensivelmente o caminho que seguia para o subúrbio de Miragaia.

 

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1- ver A imagem tem de saltar: a igreja e o Porto no século XVI (1499-1606) daquele autor, p. 26, nota 109.

2- extraído de um documento do cartório do convento de 1307 referente a uma protestação a uns pedreiros.

3 - cruz tem aqui o significado de encruzilhada, ou mais modernamente, cruzamento.

Uma nova casa para Deus... mas emprestada!

por Nuno Cruz, em 14.09.17

Caro leitor, vamos agora dar um salto de algumas centenas de anos para a frente na história da casa dominicana portuense! Este salto tem dois objetivos: o primeiro, não enfastia-lo com latim... (acreditem que ainda vêm aí mais documentos na língua mãe...); o segundo, dar a conhecer parte de um documento que creio inédito e que encontrei durante as minhas pesquisas.

 

Mas primeiro uma pequena introdução: O ano é o de 1778, o dia o de 24 de Abril, o acontecimento: um incêndio na igreja dominicana que destrói o seu telhado. E sinto-me compelido a fazer uma retificação: Todas ou quase todas as fontes escritas que a este incêndio se referem dão-no como acontecido em 1777. Não, não foi. Foi na data atrás referida. Pedro Vitorino é, segundo creio, a única voz que clama no deserto. Porque estou tão certo da data? Porque um indivíduo holandês morador na cidade à época a registou (bem como outras datas bastante interessantes para a história do Porto). Com certeza que com isto não é minha pretensão condenar todos os que deram como certo o ano de 1777, posto que se tratará de um erro inocente e o próprio autor dele - Agostinho Rebelo da Costa - não o terá feito com dolo. Ainda assim, ela repete-se e repete-se, correndo o risco de se tornar verdade... (ver nota no final)

 

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O documento que refiro é um inventário de bens em sequestro exigido como condição pela rainha D. Maria I aquando da entrega da antiga igreja da Ordem Terceira de São Domingos aos frades Pregadores, onde constam os bens que ficavam ao cuidado destes. Desta forma ficou o templo sendo a igreja oficial do convento de S. Domingos (mais tarde a outra igreja seria reduzida a armazém). A Ordem Terceira, essa, fora já dada como extinta em 1755 como corolário de um processo que "cheirou mal" desde o início e que não se sabe muito bem quando começou embora tenha para mim que a coisa começou a azedar ainda no final do século anterior...

Bem, mas quem não gostou nada da entrega daquele templo aos frades foi a Ordem da Trindade, sucessora da terceira dominicana, que se achava dona de tudo aquilo e que reclamou para si durante mais de 50 anos a propriedade ainda que sem sucesso. Chegaram mesmo, em 1835, a pedir como indemnização a igreja velha dos domínicos, mas isso são histórias para depois...

 

Vamos então ao documento e vejamos, abreviadamente, qual era o conteúdo daquele templo tão distintamente desenhado por Joaquim Cardoso Vitória Vilanova:

 

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Bens que estavam em sequestro em poder dos religiosos dominicanos na igreja nova

 

Capela-mor:

seis anjos estofados; uma imagem de Nossa Senhora por cima da banqueta; da parte do Evangelho a imagem de S. Francisco e da parte da Epístola a imagem de S. Domingos; duas credencias (sic) de talha douradas; cinco pedras d'ara dos altares; duas imagens de santos entre barandais; o altar da parte do Evangelho com sua pedra de ara e uma imagem de Santa Margarida e outro altar ao pé também com pedra de ara com a imagem de Santo António que nele se achava; o altar da parte da Epístola com as imagens de São José e Santa Ana e pedra de ara, no altar imediato as imagens de Nossa Senhora da Conceição, Beata Osana e Beata Colomba com pedra de ara, que são as mesmas cinco que acima se fez menção.

 

Corpo da igreja:

quatro quadros grandes com caixilhos dourados de talha, pregados dois de cada lado; em todo o corpo da igreja de nichos e em cada um deles sua imagem de diversos santos de 6 palmos de altura; um anteparo da porta principal; no coro um órgão desconcertado, e com falta de vários canudos [hoje na igreja matriz de Avintes]; seis barandas no corpo da igreja, de talha dourada, e quatro na capela-mor; o espaldar e grades onde se juntavam os irmãos da mesa, tudo arruinado; dois confessionários de pau; duas bacias somente em dois altares de lançar a água do lavatório [lavatório que está atualmente no jardim de S. Lázaro]; doze sacras dos altares; cinco estantes de pau dos mesmos; mais duas pedras de ara além das cinco já ditas.

 

Sacristia:

dois caixões com suas chaves de guardar os paramentos por cima dos quais dois espelhos grandes, cada um dividido em três; um retábulo ou oratório de talha dourada com seis nichos e em cada um sua reliqua[?], com seu frontal de talha dourada; quatro bandeirolas mais duas pequenas de talha dourada por cima das vidraças; uma mesa de mármore com pé do mesmo de se porem os cálix no meio da sacristia; uma guarda-roupa embutida na parede de guardar os ditos cálix; um espaldar de talha em feitio de resplendor [e] em ele uma cortina de seda muito velha; uma chave do sacrário pequena perfumada de prata com sua fita de peso muito usada; duas palas da porta do sacrário, uma de seda de ouro guarnecida de gabões do mesmo fio, e outra de damasco branco muito usada guarnecida de renda de ouro do mesmo uso; as chaves que dizem respeito à porta da igreja, sacristia e cemitério; a casa do cemitério com duas lojas a ela pertencentes; a casa do despacho que confronta com a sacristia e outra por baixo desta; altar principal do mesmo cemitério e nele as imagens seguintes - um santo do tamanho de 1 palmo e S. Domingos, um Senhor dos Passos com túnica roxa, cruz às costas e resplendor de folha dourada, de estatura de um homem; dentro do altar uma imagem do Santo Cristo morto, da mesma estatura, com dois véus, coberto de garça, colchão, e um lençol, e duas almofadinhas, e um véu de tafetá roxo de o cobrir; um frontal de tábua pintado e frisos dourados, dois castiçais de pau pequenos e velhos; seis jarras de pau e destas quatro douradas, e tem ramos(?) entre os quais dois são de papelão prateados; quatro alâmpadas de latão de dois palmos de alto; em um altar colateral da parte do Evangelho o Senhor amarrado à coluna, com uma toalha de linho, com renda e resplendor de folha dourada com frontal de tábua pintada e franja dourada; da parte da Epístola outro altar com a imagem de Ecce Homo com toalha de linho com renda e uma capa de damasco encarnada velha e frontal de tábua, e franja dourada, dois painéis de pano pintado; um de S. Domingos e outro de S. Caterina de 6 palmos de altura com caixilhos muito velhos de talha; oito cruzes com resplendor e pontas de talha dourada de 6 palmos de alto pregada nos varões dos arcos do corpo do cemitério, no fim do mesmo cemitério um altar com retábulo dourado, muito velho, e seis imagens; três escadas do serviço da igreja, e as grades das frestas, e altares com vinte e três varões de ferro delgados, sendo as grandes dezassete, mas algumas quebradas mais quatro varões de ferro das alcatifas da capela-mor; nove ferros de vidraças, porque sendo quatorze só se entregaram cinco; duas andarelas(?) de metal dos altares, e um jarro de estanho velho, e uma caldeira de água benta de estanho com seu exópo(?) do mesmo, com uma asa quebrada, e a outra dita de parede com seu exópo?; uma estante de pau piquena; duas cortinas de seda de ouro, de dentro da porta do sacrário, um corporal piqueno com sua renda; uma bandeirinha piquena de S. João bordada de seda; uma mesa de pau pintada de preto usada, que se acha na sacrestia e se não podia tirar, sem se quebrar; na mesma um armário pintado de azul de castanho com lotes para papeis, que pela mesma razão, se não tirou; uma alâmpada de latão piquena de palmo, e meio velha; um armário velho detrás da tribuna grande e de castanho...

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Com a certeza que a informação que consta deste inventário não interessará, na sua maioria, para o estudo da história. Contudo não deixa de apresentar o texto preciosas ainda que escassas descrições de como estava organizado o edificado que outrora pertencera à ordem terceira e que em 1778 passou para as mãos dos dominicanos, passando a ser partir dessa data a sua igreja conventual de facto.

 

Do edificado que tudo isto albergou resta o que se vê nas imagens abaixo, colhidas pelo autor destas linhas quando há poucos anos o local foi pesquisado arqueologicamente. Como vemos, apenas parte do antigo carneiro da igreja ainda lá se encontra e nela alguns dos seus "ocupantes"; aqueles que há centenas de anos escolheram o templo para sua última morada e que nem poderiam imaginar que no futuro estavam condenados a ser pisados por transeuntes, carros de bois, e toda a sorte de ululantes e poluentes veículos movidos por motor de combustão interna...

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NOTA: Mais recentemete, em outubro, consultando um livro do cartório franciscano depositado na Biblioteca Pública Municipal do Porto pude corroborar esta data, pois nele se encontram transcritos vários documentos referentes à extinção da Ordem Terceira de S. Domingos onde a mesma vem lançada.

 

Bibliografia: Petição da Celestial Ordem da Trindade (ADP)

Agradecimento: A Gabriel Silva pela informação sobre o orgão da igreja dos terceiros.

Levantando uma casa

por Nuno Cruz, em 08.09.17

Na ausência de uma data concreta para a fundação do convento de S. Domingos do Porto, a expressão mais correta que podemos empregar é que ela terá ocorrido «no anno de 1237 para o de 1238». Esta expressão não é minha. Foi usada pelo frade dominicano que escreveu o Livro da fazenda de 1737.

 

Existem outras duas datas frequentemente referidas, mas que creio não serem sustentadas documentalmente: a primeira - 1236 - surge no Livro do Foral do convento datado de 1728, num capítulo relacionado com o abastecimento de água à comunidade e que é apresentada sem mais nada. E a bem da verdade esta passagem mais se parece referir à altura em que D. Pedro Salvadores enviou a sua missiva a Burgos e não ao estabelecimento dos primeiros frades no Porto, pois diz: «No anno de 1236 nos mandou vir para esta cidade o snr. bispo D. Pedro Salvador».

O outro ano também bastante vezes referido é o de 1239. Acontece porém que neste caso a data foi inicialmente apontada no século XVII por Manuel Pereira de Novais na sua monumental obra Anacrisis Historial, tendo como base a crónica dominicana do espanhol Fr. Juan Lopez. A data foi subsequentemente repetida em várias obras, nomeadamente na influente Descrição topográfica e histórica da cidade do Porto de Agostinho Rebelo da Costa. Acontece que o cronista espanhol comete um pequeno erro de computação de um ano ao verter a Era de César para o Anno Domini, quando se refere à carta que vamos ler abaixo (aliás já Fr. Luís de Sousa no prólogo à sua crónica queixa-se que o seu homólogo comete vários erros ao tratar dos conventos portugueses). A passagem em Fr. Juan Lopez diz: «Dada en Oporto, en Era de mil y dozientos y setenta, y seis, que es año de 1239, por el mes de Março». Contudo, se subtraírmos 38 anos à Era de 1276 vimos a ter 1238(1).

 

Posto isto, a única certeza que temos é que em Março de 1238 os frades já se encontravam no Porto e em grande labuta construtiva dado que o mais antigo escrito datado que a ele se refere, lavrado no mês de março da Era de 1276, reporta à construção do convento. O documento em si tem como alvo a população portugalense, referindo as benesses que o bispo estava disposto a dar a todos que ajudassem os frades a erguer casa. Fosse no empilhamento de madeira, na condução de pedra ou mesmo trabalhando por um dia na obra, por sua mão ou pela mão de outrem, todos que ajudassem receberiam indulgências. Ei-la:

 

 

Carta de perdom que o bispo D. Pedro deu a todolos que ajudassem a lavrar e esmola dessem para a fábrica do mosteiro e como foi edificado com autoridade do bispo

«Petrus Dei patientia portugallensis episcopus omnibus tam clericis quam laicis in portugallensi dioecesi commorantibus salutem et bonis operibus habundare. Noveritis nos ffratres prædicatores ad morandum in civitate nostra de consensu, et voluntate canonicorum, et omnium ciuium portugallensium recepisse, credentes ipsos vtiles et necessarios corporibus et animabus degentium in ciuitate et in episcopatu nostro. Vnde cum prædicti fratres nihil habeant, nec possint sine nostro iuuamine et vestro ecclesiam et domos sibi necessarias construere vniuersitatem vestram rogamus atque in remissionem vestrorum vobis iniungimus peccatorum quatenus tam in lignis colligendis quam etiam in lapidibus ducendis operi prædicatorum fratrum necessarijs vos exhibeatis propitios et deuotos iuxta illud . Sibi ædificat qui domum Dei ædificat. Nos igitur de Dei misericordia plenissime confidentes, omnibus, qui sibi fideliter inuenerint in lignis colligendis et lapidibus ducendis vel ibi corpore proprio laborauerint per unum diem, vel operarium miserint loco sui quadraginta dies de iniuncta sibi legitime paenitentia misericorditer relaxamus atque in hunc modum qui operi suprædicto et fratribus plus boni fecerint plus mercedis accipient et coronæ. Datum Portugalliæ sub Æra M.CC.LXXVI mense Martij.i Valeat usque ad duos annos.» (o sublinhado é meu)

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pequena montagem que efetuei para mostrar o contraste entre o traslado do séc. XVIII (acima) e o do séc. XIV (abaixo) da pastoral de D. Pedro Salvadores

 

Esta carta encontra-se preservada no traslado de 1319 que consta de dois pergaminhos com vários e importantes documentos sobre a fundação do convento, bem como consta do traslado do séc. XVIII (ver publicação anterior). No pergaminho está assim titulada: «carta de perdão que o bispo D. Pedro deu a todolos que ajudassem a lavrar e esmola dessem para a fabrica do mosteiro e como foi edificado com autoridade do bispo».

Não obstante as palavras bondosas do prelado, veremos como uns meses depois desta missiva a situação deu uma volta de 180º, ao ponto de se temer a expulsão dos dominicanos do bispado portugalense!

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1 - Fr. Juan Lopes refere também a carta de D. Sancho II em que este se dá como protetor do convento, esta sim, corretamente datada de 1239. Contudo o autor parece insinuar que a carta do rei é anterior à do bispo o que não é verdade. A carta do rei é consequência do conflito que logo em 1238 se instalou, sobre o qual falaremos mais à frente.

 

Bibliografia: pergaminho do antigo cartório do convento (TT); Primeira parte da história de S. Domingos (Fr. Luís de Sousa); Tercera parte de la historia general de Santo Domingo, y de su Orden de Predicadores (Fr. Juan Lopez).

Convite à fundação

por Nuno Cruz, em 02.09.17

No inicio de 1237 (ou possivelmente ainda no ano anterior) o bispo do Porto D. Pedro Salvadores, com aprovação do seu Cabido, tomou a resolução de convidar a Ordem dos Pregadores a fundar convento no bispado portugalense. Para isso enviou uma missiva ao capítulo provincial da Província das Espanhas que se celebrava em Burgos propondo isso mesmo e oferecendo casa e terreno para a instalação do cenóbio. O pedido foi bem aceite pelo definitório e logo se decidiu que os frades Fr. Gualter e Fr. Domingos Galego ali presentes partissem para o Porto a organizar casa, a terceira no reino de Portugal depois de Santarém e Coimbra.

 

O documento que abaixo apresento é o texto dessa missiva tal como ele surge num traslado em pergaminho do século XIV que outrora pertenceu ao convento dominicano e que apresenta algumas diferenças face ao texto da crónica de Fr. Luís de Sousa. Na margem do documento foi acrescentado séculos depois a simples descrição Carta do bispo ao capítulo. No mesmo pergaminho constam outros documentos referentes à fundação e instalação do convento, que deverão estar relacionados com um processo judicial entre a comunidade e o bispo motivado pela construção do alpendre e cemitério. A data está ilegível por manchas que ocupam a quase totalidade das suas primeiras linhas, contudo no cabeçalho em letra posterior lê-se Era 1357 (ano de 1319); curiosamente o mesmo ano em que "estalou" a polémica por causa da construção do alpendre.

Existe também um traslado já do século XVIII e que também deverá estar ligado a um processo judicial mas agora entre a comunidade e o Senado da Câmara, pois numa passagem da sentença do processo se lê que ocorreu um atraso com o seu despacho por não haver quem quisesse fazer o traslado dos pergaminhos por serem de letra muito antiga. Ironia das ironias, também este processo estava relacionado com o alpendre, no caso com o seu fim.

 

 

Carta original em latim

«Venerabilibus viris et in Christo charissimis Priori Prouinciali, et Diffinitoribus, totique Capitulo fratrum Prædicatorum Burgis celebrando, Petrus Dei miseratione Portugallensis dictus Episcopus finalem in Dei seruitio perseverantiam cum salute . Vergente ad occiduum mundo inualescente iniquitate, non iam multorum refrigescit, sed potius extinguitur charitas : nec poterir ignis ille, quem venit Dominus in terram mittere, vt vehementer ardeat sine Divini verbi fabello vllatenus reascendi. Ideò nostris temporibus non dubitamus Ordinem vestrum Dei prouidentia suscitatum, per quem Dominus infrigidatos malitia ad sui amoris incendium reuocaret. Quanta igitur præ cæteris Portugallensibus locis, tam in nostra Dioecesi, quam Bracharensi, et etiam Lamecensi, quæ à vestrorum Fratrum consolatione non modicum sunt remotæ, malitia inundauit, vobis nullatenus sufficimus explicare. Insurrexerunt enim, prædones innumerablis, qui Dominum non timent, nec homines reuerentur, qui de Monasterijs et Ecclesijs, solius Dei cultui deditis, speluncas lattronum efficiunt, nec non claustra pugnantum, stabula iumentorum, prostibula merectricium : direptisque tam clericorum, quam agricolarum, et etiam religiosorum possessionibus, possessores ipsos contra altare crudelitus trucidantes, vel cum ecclesiasticus comburentes, à facto tam execrabili nec admonitionibus, nec excommunicationibus cohibentur. Quis non doleat quosdam paruulorum ab vberibus matrum auulsos gladijs trucidare, alios allidi scopulis, quosdam submergi fluminibus, nisi à spoliatis parentibus prece, vel alio quantulocunque pretio redimantur(?) Quis non horrebit puellas ante annos nubiles violenter abrumpi, et in Ecclesijs plurimorum ex nefandorum hominum libidinosa frequentia expilari(?) Intuentes igitur cum Salomone hæc mala quæ fiunt sub Sole, calumniasque pauperum, et lacrimas innocentium, et consolatorem neminem : nec posse resistere malorum violentiæ cunctorum auxilium destitutos : dignum duximus, de Capituli nostri consilio, et assensu plantare Conuentum vestri Ordinis in loco nostro ad cooperationem salutis animarum, et solatium afflictorum : credentes fratrum vestrorum præsentia cum Dei gratia non modicum vestris partibus profuturum. Damusque vobis in bono loco Ecclesiam consecratam cum domibos in quadro ad modum claustri constructis, et spatium satis latum ad habendum hortum, et ad officinas construendas. Vestram igitur, de qua plane confidimus, rogamus in Domino charitatem, quatenus amore Dei, et nostri, et salutis animarum intuitu, ad iam dictum Conuentum construendum, fratres quos vobis[9] videritis necessarios, qui virtute verbi Dei valeant mala supradicta irrumpere, nobis dignemini destinare. Parati enim sumus, dante Deo, semper eos in ijs quæ poturimus aduuare, et ob dilectionem, quam semper erga vestrum Ordinem habuimus, vberius confouere. Orate pro nobis, et valete.»

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NOTA: Por ventura uma ou outra palavra poderá vir ainda a ser revista uma vez que no original constam abreviaturas das quais não obtive ainda confirmação.

 

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Amostra do traslado feito em 1319 do documento aqui descrito.

 

A carta faz forte menção ao conturbado tempo pelo qual Portugal passava durante o reinado caótico de D. Sancho II, rei que em 1245 o Papa viria a considerar rex inutilis, entregando a Coroa ao irmão D. Afonso. É verdadeiramente horroroso o cenário pintado por D. Pedro Salvadores. Vejamos a versão de Fr. Luis de Sousa:

 

 

Versão em português

«Pedro por mercê de Deos bispo do Porto, aos veneráveis varões e em Cristo carissimos o prior provincial, e definidores, e a todo o capítulo que está para se celebrar na cidade de Burgos: saúde e em serviço do Senhor perserverança até ao fim.

Cerrando-se já o dia do mundo, e estando quasi no cabo: pois com o poder, e forças que a maldade tem tomado nele, não só se esfria a caridade de muitos, mas de todo se vai perdendo, e apagando: e não se podendo esperar que aquele fogo, que o Senhor veio pegar na terra, se torne a acender, pera que com veemente ardor abrase as almas, se não for avivado, e abanado com o ar, e assopros de sua santa palavra. Por isso assentamos, e temos por certo que criou, e levantou a providência divina a vossa Ordem em taes tempos, pera por meio dela tornar a inflamar em seu amor aqueles, que a malícia do pecado trás enregelados, e amortecidos.

Assi não há palavras que possam bem declarar o muito, que tem crecido os excessos, e desaforamentos, mais que em todas as outras partes de Portugal, neste nosso bispado, e nas comarcas de Braga e Lamego, terras onde se vive longe do trato, e consolação dos vossos religiosos. Podemos dizer, que vai tudo coberto de enchentes de pecados. Porque andam levantados infinitos salteadores, que sem temor de Deos, nem respeito dos homens, fazem dos mosteiros e igrejas dedicadas ao culto, e serviço de um só Deos, covas de latrocínios, castelos de soldadesca, estrebarias de suas bestas, casa pública de mulheres infâmes, e perdidas. E saqueando os casaes, e fazendos dos clérigos, e lavradores, e até dos frades, matam à espada os mesmos caseiros diante dos altares, ou os queimam com os clérigos. E não bastam para refrear tamanhas exorbitâncias nenhumas deligências eclesiásticas de monitorios, e escomunhões. Quem poderá ouvir sem muito dôr, que chegam a arrebatar as crianças dos peitos das mães, e umas passam de estocadas, outras arrebentam nos penedos, outras afogam nos rios, se os pais despois de roubados de todo não acodem a resgata-las com alguma cousa de valia, por pouca que seja, ou com lágrimas, e rogos? Quem não há-de tremer, e pasmar de não valer às moças serem quasi mininas, e muito longe dos anos de casar, pera escaparem de ser com brava violência forçadas, e dentro das igrejas afrontadas por muitos homens juntos em alcateas à execução de tão enorme, e bestial sensualidade?

Todos estes males passam entre nós, e á nossa vista, e vendo sobre eles injúrias de pobres, lágrimas de inocentes, e nenhum consulador, como se queixava Salamão: e sobretudo não sermos poderosos para resistir à força maior da gente danada, e perversa, por estarmos de todo ponto desemparados de quem nos possa valer: pareceo-nos acertado fundar nesta nossa cidade um convento da vossa Ordem, assi para termos nele coadjutores no que cumpre à salvação das almas, como a consolação, e alívio dos atribulados. Pera o que houvemos primeiro conselho, e beneplácito do nosso Cabido: tendo por certo que com a graça do Senhor nos será de muita utilidade espiritual nestas partes a presença, e companhia de taes religiosos.

E desde logo vos oferecemos uma igreja já sagrada, e em bom sítio, acompanhada de umas moradas de casas edificadas em quadro a modo de claustro, com um pedaço de terra bem largo, em que haverá lugar pera fazer oficinas, e prantar horta.

Portanto pedimos a vossa caridade em o Senhor, a qual estamos confiados: que por seu amor, e nosso, e polo que toca à salvação das almas, hajais por bem mandar-nos logo os frades, que vos parecerem necessários pera ordenarem o Mosteiro: e que sejam pessoas de tal valor, que com o poder, e armas da palavra de Deos se possam opor, e fazer guerra aos males, que temos dito. Porque de nossa parte estamos prestes com o favor Divino, pera os ajudar em tudo o que pudermos, e os agasalhar com muito amor, polo que sempre tevemos a esta Ordem.

Encomendai-nos ao Senhor, que vos guarde, e dê saúde.»

 

E agora, para os resistentes que ainda me lêem, a versão em castelhano de Fr. Juan Lopes que não é bem igual...

 

 

Versão em castelhano

«A los venerables varones carissimos en Cristo, Provincial, y difinidores, y a todos os vocales que se han juntado a celebrar capitulo en el conuento de Burgos, de la Orden de los Predicadores. Pedro por la divina misericordia Obispo de Oporto, salud, y perseverancia hasta el fin en el servicio de nuestro Señor.

Acercandose ya la fin del mundo quando la maldad ha cobrado tan grandes fuerças, que ya no solamente se puede dezir, que la caridad christiana se ha enfriado sino que de todo punto falta aquel divino fuego que el señor embio al mundo con deseo que sé encendiesse en los coraçones de los hombres, tiene necessidad de instrumentos que le enciendan, y abiben con este intento, en nuestros tiempos tenemos por cierto que ha sido providencia divina dar al mundo vuestra Orden. La qual sirva de reducir al amor divino los coraçones que la malicia tiene frios. Echase de ver este fructo en este Obispado y en el de Braga, y en outros. Donde no a entrado la predicacion de los frailes de vuestra Orden, los pecados en salide de madre, y la perdicion a llegado a estado que es impossible significar la perdicion que en todo ay. Està la campaña llena de saltadores, e ladrones, hombres sin numero que han ya perdido el respeto a Dios, y al mundo, gente tan perdida, que los monasterios, y iglesias consagradas al culto divino son cuebas de ladrones, donde se recogen, y los claustros donde se han encerrado los religiosos a hazer guerra, a los vicios, y al demonio son cavalleriças de bestias, y casas publicas donde se acogen las mugeres perdidas, y rameras. Tienen tiraniçadas las possessiones de los labradores, de los clerigos, y de los frayles. Matanlos estando arrimados a los altares, ò mueren abrasados quando queman sus iglesias. Las maldades son abominables, y de ningun provecho, amonestaciones, ni excomuniones, que con todo lo que devia ser remedio, se encruelecen màs. Quitan los niños de los pechos de sus madres, y en su presencia los deguellan. Dan con ellos por las paredes, ò ahoganlos en los rios, perdonan a solos aquellos, que con ruegos, y dineros redimen sus padres. Es espanto dezirlo. Sacan las donzellas de casa de sus padres, y las deshonran, y porque a tan grand maldad, acompañe el sacrilegio sirven las iglesias de mancebias, donde suceden semejantes casos.

Mirando con Salomon tan enormes pecados, como son estos, y otros que se hazen al medio dia (como dizen) y a vista del sol, y viendo las calumnias que padecen los pobres, las lagrimas de los inocentes por una parte, y por otra que non ay quein consuele los miserables, ni quien haga resistencia a tan grandes violencias, sin aver quien los favarezca en tan grandes males. En este estado se hallan las cosas desta provincia.

Solo un remedio se nos ha ofrecido que es despachar a vuestro capitulo, y rogaros que nos embieys frailes que edifiquen convento en esta ciudad. Que servira de dos cosas la presencia de los religiosos. La una que encaminaran la salvacion de las almas, y la otra que lo animaran a los afligidos, que tan grand necessidad tienen de consuelo. Teniendo por cierto que con la presencia de vuestros frayles, sea de servir el Señor de hazer una gran reformacion en estas partes. Y os ofrecemos casa, y Iglesia consagrada con casas puestas en tal disposicion que podran servir de claustros, se os dara sitio tan capaz que en el se puedan hacer todas las oficinas necessarias, y dexar un jardin para recreacion de los religiosos. Con la confiança de que vuestro zelo tenemos, rogamos en el Señor en vuestra caridad, que poniendo los ojos en lo que a su Magestad deveys, y al amor de los proximos, y salud de las almas nos embieys frayles que os parecerien necessarios, que funden convento, y con la fuerça de la palabra de Dios, vençan tan grandes males, assegurandoos que los favoreceremos en todo lo que fuere posible, llevados del amor que siempre avemos avemos tenido a vuestra Orden.»

 

Creio, caro leitor, que cada uma das versões vale por si só, uma mais chegada ao original aqui, outra ali... mas ambas saborosissimas de ler, mesmo tendo em conta os terriveis factos que descrevem.

 

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Bibliografia: pergaminho do antigo cartório do convento (TT); Primeira parte da história de S. Domingos (Fr. Luís de Sousa); Tercera parte de la historia general de Santo Domingo, y de su Orden de Predicadores (Fr. Juan Lopez).